As Estações do Ano e os Riscos à Saúde do Seu Pet
Assim como os humanos ficam mais vulneráveis a certas doenças sazonais ou seja, são doenças que aumentam a sua frequência em determinadas épocas do ano, os animais domésticos também têm seus ciclos de risco com essas doenças sazonais. O inverno favorece a transmissão de doenças respiratórias como a gripe canina. A primavera e o verão, com calor e umidade, aumentam exponencialmente a infestação de carrapatos — vetores de algumas das doenças mais graves da medicina veterinária. E a cinomose, uma das viroses mais devastadoras para cães, espreita o ano inteiro, com picos em períodos de maior circulação de animais.
Conhecer essas doenças — como se transmitem, quais são os sintomas e, principalmente, como preveni-las — é uma das responsabilidades mais importantes de qualquer tutor. A boa notícia é que a maioria dessas condições é prevenível com vacinação atualizada, controle de parasitas e cuidados de manejo adequados.
Na Vida de Bicho, acreditamos que prevenção é sempre o melhor tratamento, principalmente quando se trata de doenças sazonais. Por isso, preparamos este guia completo sobre as principais doenças sazonais que afetam cães e gatos no Brasil, com tudo que você precisa saber para proteger o seu companheiro durante o ano inteiro.
Gripe Canina: A Tosse que Não Deve ser Ignorada
O que é a gripe canina?
A “gripe canina” é um termo popular usado para descrever um conjunto de doenças respiratórias infecciosas em cães, sendo a mais conhecida a Traqueobronquite Infecciosa Canina — popularmente chamada de tosse dos canis. Trata-se de uma infecção do trato respiratório superior, altamente contagiosa, causada por uma combinação de agentes virais e bacterianos.
Os principais agentes envolvidos são:
- Vírus da Parainfluenza canina;
- Adenovírus canino tipo 2;
- Bordetella bronchiseptica (bactéria);
- Micoplasma (em alguns casos).
Em casos mais graves, pode haver coinfecção com o Vírus da Influenza Canina (H3N2 e H3N8), de maior impacto clínico.
Como se transmite?
A transmissão ocorre principalmente por contato direto entre animais (focinho a focinho), por aerossóis de tosse e espirro e pelo contato com superfícies contaminadas — comedouros, bebedouros, brinquedos e ambientes compartilhados.
Por isso, essa doença sazonal se alastra rapidamente em locais com alta concentração de cães: canis, pet shops, clínicas veterinárias, exposições, parques caninos e escolas de adestramento.
Quem tem maior risco?
- Filhotes com sistema imunológico ainda em desenvolvimento;
- Animais idosos ou imunossuprimidos;
- Cães que frequentam ambientes coletivos com regularidade;
- Animais não vacinados ou com vacinação desatualizada.
Sintomas
A apresentação clínica mais comum é a tosse seca e persistente, frequentemente descrita como um “engasgo” ou como se o animal tivesse algo preso na garganta. Outros sinais incluem:
- Espirros frequentes;
- Secreção nasal transparente (pode evoluir para amarelada ou esverdeada);
- Olhos vermelhos com secreção (conjuntivite);
- Febre leve;
- Apatia e redução do apetite.
Na maioria dos casos saudáveis e vacinados, a doença evolui de forma autolimitada em 1 a 2 semanas. Porém, em filhotes, idosos e animais imunossuprimidos, pode progredir para broncopneumonia, condição grave que exige internação e tratamento intensivo.
Tratamento
O tratamento é de suporte e sintomático:
- Antibioticoterapia (para controlar infecções bacterianas secundárias);
- Nebulização para fluidificar secreções;
- Antitussígenos quando indicados;
- Suporte nutricional e repouso.
Prevenção
A vacinação é a principal forma de prevenção. A polivalente (V8 ou V10) cobre Parainfluenza e Adenovírus canino. Existe também a vacina intranasal específica contra Bordetella bronchiseptica, altamente recomendada para cães que frequentam ambientes coletivos.
Além da vacinação, é importante:
- Evitar contato do seu cão com animais com sintomas respiratórios;
- Não compartilhar comedouros e bebedouros em ambientes coletivos;
- Exigir comprovante de vacinação antes de deixar o animal em pet shops ou canis.
Cinomose: A Doença Viral Mais Temida pelos Tutores de Cães
O que é a cinomose?
A cinomose é causada pelo vírus da cinomose canina (CDV — Canine Distemper Virus), um paramixovírus altamente contagioso e com alto potencial de mortalidade. É considerada uma das doenças virais mais graves da medicina veterinária canina e, infelizmente, ainda muito prevalente no Brasil, especialmente em populações de animais não vacinados. Ela não consta diretamente como uma das doenças sazonais frequentes, mas certamente as épocas mais quentes do ano favorecem um pico maior de incidência.
O vírus afeta múltiplos sistemas do organismo: respiratório, gastrointestinal, neurológico e cutâneo.
Como se transmite?
A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto com secreções de animais infectados — secreção nasal, ocular, saliva, urina e fezes. O vírus também pode se dispersar pelo ar em ambientes fechados.
Animais selvagens como gambás, guaxinins e furões também podem ser reservatórios do vírus, representando risco especialmente para cães que têm acesso a áreas rurais ou de mata.
Quem tem maior risco?
- Filhotes entre 3 e 6 meses (período de maior vulnerabilidade, quando a imunidade materna já diminuiu mas a vacinação pode ainda não estar completa);
- Cães sem vacinação ou com protocolo incompleto;
- Animais em situação de rua ou de abrigos com alta densidade populacional;
- Animais imunossuprimidos por outras doenças ou tratamentos.
Estágios e Sintomas
A cinomose evolui em fases, afetando diferentes sistemas:
Fase inicial (respiratória e gastrointestinal):
- Febre bifásica (sobe, cai e volta a subir);
- Secreção nasal e ocular (inicialmente transparente, evolui para purulenta);
- Tosse, espirros, dificuldade respiratória;
- Vômito e diarreia;
- Apatia intensa e perda de apetite.
Fase neurológica (nem sempre presente, mas de pior prognóstico):
- Tiques musculares (mioclonias) — movimentos involuntários e rítmicos, especialmente em membros e mandíbula;
- Convulsões;
- Paralisia progressiva;
- Desorientação e demência;
- “Mastigação de chiclete” — sinal clássico de comprometimento neurológico pela cinomose.
Sinais cutâneos:
- Hiperqueratose dos coxins (“coxins duros”) e do focinho — sinal patognomônico da cinomose;
- Pústulas abdominais.
Tratamento
Não existe tratamento antiviral específico para a cinomose. O manejo é de suporte intensivo:
- Antibióticos para infecções bacterianas secundárias;
- Anticonvulsivantes para controle das crises neurológicas;
- Suporte nutricional e hídrico (fluidoterapia);
- Antivirais adjuvantes em alguns protocolos.
O prognóstico é reservado a grave, especialmente quando há comprometimento neurológico. A taxa de mortalidade é elevada, e animais que sobrevivem à fase neurológica frequentemente apresentam sequelas permanentes.
Prevenção
A vacinação é a única forma eficaz de prevenção. O protocolo padrão inclui:
- Série inicial de vacinas a partir das 6 a 8 semanas de idade, com reforços a cada 3 a 4 semanas até os 4 meses;
- Reforço com 1 ano de vida;
- Reforços anuais ou trianuais, conforme o tipo de vacina e orientação veterinária.
A vacina polivalente (V8 ou V10) inclui proteção contra a cinomose. Manter o protocolo vacinal em dia é a medida mais importante que um tutor pode tomar para proteger seu cão.
Doenças Transmitidas por Carrapatos: Os Inimigos Invisíveis
Os carrapatos são ectoparasitas hematófagos que, ao se alimentar do sangue do hospedeiro, podem transmitir uma série de agentes infecciosos graves. No Brasil, as doenças transmitidas por carrapatos representam uma das maiores preocupações da medicina veterinária — e também da saúde pública, já que algumas dessas doenças são zoonoses (transmissíveis para humanos).
Erliquiose Canina
Agente: Ehrlichia canis, transmitida principalmente pelo carrapato Rhipicephalus sanguineus (carrapato marrom do cão).
A erliquiose é uma das doenças mais prevalentes em cães no Brasil e pode se manifestar em três fases clínicas: aguda, subclínica e crônica.
Fase aguda (2 a 4 semanas após a picada):
- Febre, apatia, perda de apetite;
- Secreção ocular e nasal;
- Linfonodos aumentados;
- Trombocitopenia (redução de plaquetas) com risco de sangramento.
Fase crônica (se não tratada):
- Perda de peso progressiva;
- Sangramento espontâneo (petéquias, epistaxe, hematúria);
- Pancitopenia (redução de todas as células sanguíneas);
- Insuficiência renal e hepática;
- Comprometimento neurológico.
Tratamento: doxiciclina por 28 dias é o protocolo padrão. O diagnóstico precoce é fundamental — a fase crônica tem tratamento muito mais difícil e prognóstico mais reservado.
Babesiose (Piroplasmose)
Agente: protozoários do gênero Babesia (principalmente Babesia vogeli no Brasil), transmitidos por carrapatos.
A babesiose destrói os glóbulos vermelhos do animal, causando anemia hemolítica que pode ser rapidamente fatal sem tratamento.
Sintomas:
- Febre alta;
- Fraqueza intensa e colapso;
- Mucosas pálidas ou amareladas (icterícia);
- Urina escura (hemoglobinúria);
- Vômito e diarreia.
Tratamento: imidocarb ou dipropionato de imidocarb, associado a suporte intensivo. Casos graves podem necessitar de transfusão sanguínea.
Febre Maculosa Brasileira
Agente: Rickettsia rickettsii, transmitida pelo Amblyomma cajennense (carrapato-estrela) e outros carrapatos do gênero Amblyomma.
A febre maculosa é uma zoonose de notificação compulsória — afeta tanto os cães quanto os humanos — e tem alta taxa de mortalidade quando não diagnosticada e tratada precocemente.
Sintomas em cães:
- Febre alta e súbita;
- Apatia intensa;
- Manchas avermelhadas na pele (petéquias e equimoses);
- Vômito, diarreia com sangue;
- Edema (inchaço) nas extremidades;
- Comprometimento neurológico nos casos graves.
Sintomas em humanos: febre alta, dor de cabeça intensa, manchas vermelhas na pele (especialmente nos punhos e tornozelos), que progridem para o tronco. É uma emergência médica humana.
Atenção: se você encontrar carrapatos no seu cão e desenvolver febre e manchas avermelhadas nos dias seguintes, procure atendimento médico imediatamente e informe sobre o contato com carrapatos.
Anaplasmose
Agente: Anaplasma platys, que infecta as plaquetas dos cães.
Frequentemente coinfecta animais junto com a erliquiose, já que é transmitida pelos mesmos vetores. Causa trombocitopenia cíclica, com episódios recorrentes de redução de plaquetas.
Sintomas: sangramento, hematomas espontâneos, febre, apatia. Muitas vezes subclínica, detectada apenas em exames de rotina.
Como Prevenir as Doenças do Carrapato
A prevenção é o pilar mais importante no controle dessas doenças:
Controle de carrapatos com produtos antiparasitários
Converse com o veterinário sobre a melhor opção para o perfil do seu animal. As principais formas disponíveis são:
- Coleiras antiparasitárias de longa duração (8 a 12 meses): altamente eficazes, especialmente para animais com alto risco de exposição;
- Spot-on (pipeta): aplicação mensal na região do pescoço;
- Comprimidos orais (isoxazolinas): alta eficácia e praticidade, com ação de 1 a 3 meses dependendo do produto;
- Sprays e shampoos antiparasitários: menor duração, úteis como complemento.
Inspeção regular após passeios
Após cada passeio em áreas de mato, grama alta ou terra, inspecione cuidadosamente o seu cão — especialmente nas regiões de orelhas, axilas, virilha, entre os dedos e ao redor do colar.
Remoção correta de carrapatos
Use pinça de ponta fina ou removedor específico. Segure o carrapato o mais próximo possível da pele, puxe com movimentos firmes e verticais, sem torcer. Nunca aplique vaselina, álcool ou fogo — isso estresa o carrapato e aumenta o risco de transmissão de agentes infecciosos. Depois da remoção, higienize o local e lave as mãos.
Controle do ambiente
Carrapatos sobrevivem no ambiente por meses. Mantenha gramas e jardins aparados, evite acúmulo de folhas secas e trate o ambiente com produtos acaricidas quando necessário.
Vacina contra Leishmaniose
Embora a leishmaniose seja transmitida por flebotomíneos (mosquito-palha) e não por carrapatos, merece menção neste contexto por ser igualmente sazonal e de alta prevalência no Brasil. Converse com o veterinário sobre a vacinação e uso de repelentes específicos.
O Papel da Vacinação e dos Exames de Rotina
Para todas as doenças discutidas neste artigo, sendo doenças sazonais ou não, dois pilares são insubstituíveis:
Vacinação em dia: a polivalente (V8/V10) protege contra cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa canina, parainfluenza, adenovírus e leptospirose. O protocolo deve ser iniciado na fase de filhote e mantido com reforços ao longo de toda a vida.
Exames de rotina: hemograma e painéis de doenças transmitidas por carrapatos (erliquiose, babesiose, anaplasmose) devem ser realizados pelo menos anualmente, especialmente em animais com exposição a carrapatos. O diagnóstico precoce é determinante para o prognóstico de todas essas condições.
Conclusão: Prevenção é o Melhor Remédio
Gripe canina, cinomose e doenças transmitidas por carrapatos são doenças sazonais que podem se tornar ameaças reais e presentes no cotidiano dos pets brasileiros. Mas são, em grande parte, condições preveníveis — com vacinação adequada, controle parasitário consistente e acompanhamento veterinário regular.
Não espere o seu pet adoecer para agir. Um protocolo preventivo bem estruturado, iniciado ainda na fase de filhote e mantido ao longo da vida, é o maior presente que você pode oferecer ao seu companheiro.
Na Vida de Bicho, nossa equipe está pronta para avaliar o status vacinal e parasitário do seu pet, solicitar os exames necessários e montar um protocolo preventivo completo e personalizado. Agende uma consulta e proteja seu pet das doenças sazonais com a orientação de quem entende do assunto.








